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ago 25

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Por Tânia Cordeiro

Professora do Curso de Comunicação Social/Campus I

Analisar uma determinada manifestação que é, freqüentemente, objeto de muitos elogios implica em riscos. De um lado, pode-se cair na homologação dos juízos já estabelecidos e, de outro, é possível ser incompreendido caso se adote uma posição independente das formas consensuais de apreciação do fenômeno. Acredito que tenho chance de sofrer essa segunda forma de julgamento no que se refere aos rápidos comentários que farei sobre o carnaval de Salvador. Adianto, desde logo, que me agrego à corrente emocional e emocionante que vibra com a dimensão da festa, se impressiona com o som, com as cores, com os sorrisos etc. Mas noto que o carnaval não é só alegria, não é pura magia e cobro como que uma explicação para tornar possível tão grandioso evento.

Entrar no carnaval com tudo pago, com roteiro pré-definido, com músicas e danças já ensaiadas, com carro de apoio ou com camarote assegurados não pode ser a mesma coisa que entrar na festa para fazer a separação entre o bloco e a pipoca ou para coletar latinhas. A idéia de que cada um faz o seu carnaval sugere que as possibilidades estejam distribuídas e todos, igualmente, podem escolher a festa que bem entender e, portanto, todos podem ocupar certos espaços nas vias públicas em conseqüência da escolha feita.

A idéia de escolha a alcance de todos é uma das fantasias básicas do carnaval. O adolescente que se comprime com o seu fogareiro em brasa em meio aos foliões, por essa lógica, é mais um que realiza uma opção e é, muitas vezes, visto como uma prova de Bahia, de nossa riqueza cultural e de uma habilidade corporal só possível aos afrodescendentes. Os vendedores de bebidas e comidas também compõem o produto carnavalesco como uma espécie de ingrediente da receita momesca. Sobre eles são registrados comentários relativos aos petiscos e à alegria original da Bahia, mas também é indicada a luta para se conquistar lugar nos circuitos da festa, fazendo-se notar muita diferença entre os protocolos de ingresso no referido espaço a ser consumido por clientes (integrantes de bloco e de camarotes) e a ser atendido por pequenos negociantes. Essa diferença não impede que todos se divirtam, mas o fato de se divertirem não cancela as distinções nada fantasiosas que estruturam o espaço do nosso carnaval.

A idéia de que tudo é festa muitas vezes embaralha a visão dos que, embora enxergando as cenas de discriminação ou de privatização do espaço público, não conseguem atinar para o fato de que as regras usadas durante o evento não são particularidades carnavalescas, mas se trata de adaptações de usos ordinários do espaço urbano e social. No viver ordinário nós temos o dono da rua que, no trânsito, por exemplo, é representado por aqueles que se encontram no interior dos automóveis em contraste com os pedestres que são percebidos como errantes e desavisados a freqüentar lugares dominados pela velocidade e pela máquina. Essa divisão pode ser traduzida no perímetro carnavalesco através da apropriação de natureza preferencial e quase institucional das vias públicas pelos blocos e camarotes, cabendo aos que estão fora dessas áreas a condição de massa a disputar nesgas de visão e de inclusão de seus corpos no campo da efervescência trazida com a passagem dos públicos seletos dos blocos.

Recordo, também, que ordinariamente nós temos vias públicas que se apresentam como espaços geradores de imagens de um lugar bonito e feliz em contraste com lugares que ficam longe da visão do visitante. Isso também pode ser percebido na distribuição dos territórios ocupados pela folia momesca. Há espaços marcados pela presença de grupos sociais mais bem posicionados, enquanto outros atendem a segmentos mais marginalizados socialmente. Essa forma de divisão está presente no próprio percurso mais tradicional e, ultimamente, têm sido programadas atrações menos famosas ou qualificadas para serem executadas em alguns bairros periféricos. Também aí ficam as marcas das distinções entre pipoca, corda, bloco e camarote.