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nov 09

Texto: Ricardo Voltolini

Já se vão lá 25 anos e a advertência do meu primeiro empregador ainda ecoa nítida na minha memória: “Você é competente, bem formado e criativo. Mas muito idealista. Para ter sucesso na empresa terá de deixar os seus valores do lado de fora.”

À época, entendi a frase como uma ameaça. E, provavelmente, era essa mesmo a intenção do homem: que eu simplesmente aceitasse as regras do jogo, sem ideias dissociadas do negócio, já que não havia espaço na empresa – e isso ele fez questão de deixar claro – para tratar, por exemplo, de responsabilidades sociais, um tema com o qual já namorava, ainda que desinformada e timidamente.

Não “havia”, vale enfatizar o verbo no passado. Os tempos são outros. A realidade mudou. O mesmo garoto que foi censurado por seus arroubos idealistas – sim, o mesmo, apesar dos cabelos grisalhos – hoje tem sido contratado por empresas para falar às jovens lideranças que seus valores pessoais e suas convicções éticas são muito bem-vindos nas organizações. Mais do que isso, são fundamentais nesses tempos em que as empresas se esforçam para ser mais sustentáveis, mudando processos, práticas e estratégias na direção de buscar intersecções entre os interesses do lucro e os interesses do planeta e da sociedade.

Quando debatida na empresa, a noção de sustentabilidade é, sobretudo, um processo – arrisco dizer – de reumanização dos negócios, de reflexão sobre limites éticos, de autoanálise dos dilemas de um sistema com falhas já reconhecidas, que gera riqueza, mas esgota recursos naturais e produz mudanças climáticas e desigualdade social. Ótima oportunidade para quem tem crenças firmes e pauta sua vida por elas.

Se você, jovem profissional, já fez ou faz algum tipo de trabalho voluntário, exercitando solidariedade, altruísmo e interesse pelo outro, esteja certo de que isso será visto, cada vez mais, como uma competência desejável e valorizada nas empresas. Conta pontos.
Se você se indigna com toda e qualquer forma de desperdício – de tempo, energia, água e outros recursos naturais – e gosta de fazer mais com menos, por convicção, festeje. Chegou o seu tempo.

Se você compreende que a atividade empresarial gera impactos socioeconômicos positivos e negativos e que é seu dever reduzir ou eliminar os segundos, está pensando exatamente como as melhores empresas e as líderes.

Se você respeita a diversidade por princípio, convive bem com a divergência de opiniões, sabe ouvir, evita julgamentos baseados em preconceitos, pratica virtudes aristotélicas como a verdade e considera a transparência um valor importante, então possui diferenciais de comportamento crescentemente bem-vindos.

Nunca é demais lembrar: formação acadêmica é e sempre será fundamental, até porque – como já disse a sabedoria popular – sem competência não se estabelece. Mas os valores que formam o seu caráter, a sua atitude, o seu propósito, a maneira como encontra significado em seu trabalho também são. Saber ser é, portanto, tão importante quanto saber fazer.

Entendo aqueles que, a esta altura do texto, com base em suas experiências pessoais, estejam enxergando excesso de otimismo ou ingenuidade na visão do articulista. Mas o que digo se baseia em conversas com os mais importantes líderes empresariais do país. Se você trabalha numa empresa que não valoriza os seus valores – pior até, que não tem valores conhecidos de todo o quadro de funcionários – está na hora de procurar um lugar de mais futuro.

Sustentabilidade

Onde trabalhar

Há diferentes postos de trabalho relacionados à sustentabilidade. Muitas empresas de grande porte têm departamentos ou áreas de sustentabilidade, com uma estrutura que inclui de gerência a analistas e estagiários. O nome pode variar entre Responsabilidade Social, Responsabilidade Socioambiental ou Sustentabilidade. Às vezes, apenas Gestão Ambiental. E as funções também, dependendo da atividade da empresa—na indústria, por exemplo, a ênfase recai sobre os aspectos da gestão de processos. Mas essas áreas se incumbem quase sempre de gerir ações de relacionamento com a comunidade, monitoramento de ecoeficiência, análise de ciclo de vida de produtos, educação ambiental, economia de recursos como água, energia e papel, programas de resíduos, elaboração de relatórios e iniciativas para reduzir impactos socioambientais na cadeia produtiva.

Muitas médias empresas também começam a contratar profissionais para cuidar de questões específicas ligadas à gestão ambiental. Por exemplo: no ano passado foi criada a Política Nacional de Resíduos Sólidos que vai obrigar as empresas a assumir responsabilidades em relação à destinação do lixo produzido ao final do uso de seus produtos. Há empresas em que sustentabilidade subiu degraus na estrutura, chegando ao nível de diretoria estratégica e até vice-presidência. Nelas, costuma-se contratar profissionais de diferentes formações, como Engenharia, Administração de Empresas, Biologia, Comunicação e Marketing.

Até as empresas pequenas estão se envolvendo com o tema, especialmente as que fazem parte da cadeia de valor de grandes empresas. Órgãos públicos, institutos e fundações também estão contratando pessoas para trabalhar com temas socioambientais.

Qual a formação

Não existe uma regra. Há profissionais de diferentes formações atuando em sustentabilidade nas empresas até porque o conceito, por ser transdisciplinar, se tornou transversal nos negócios. Nas cidades e nos campos. Se você é engenheiro ou arquiteto, há cada vez mais alternativas na área da construção sustentável. Os engenheiros mecânicos, eletrônicos, agrônomos e de produção vêm sendo convocados para repensar processos e sistemas e para desenvolver tecnologias menos impactantes ao planeta. Biólogos têm sido chamados para cuidar da conservação e preservação de ecossistemas. Administradores de empresa estão envolvidos na implantação de códigos de conduta e na gestão de cadeias de fornecedores, para assegurar a conformidade destes em relação aos princípios e valores de sustentabilidade da empresa. Sociólogos e antropólogos participam de processos de escuta ativa das comunidades impactadas pela ação da empresa.

O que não falta é trabalho. Observando as empresas, é possível verificar a existência de profissionais formados nas ciências humanas, biológicas e exatas. Uma pós-graduação mais específica, em gestão ambiental ou sustentabilidade, é fundamental na medida em que oferece uma noção mais ampla de conceitos e abordagens praticados no mundo empresarial.

Onde estudar

Com a ascensão do tema sustentabilidade, a maioria das universidades e faculdades brasileiras já considera os conteúdos específicos nos programas de graduação. São muitas também as ofertas de pós-graduação, com programas que combinam conhecimentos técnicos e de gestão. Escolha o que fizer mais sentido em relação aos seus objetivos profissionais. Há ofertas interessantes na Fundação Dom Cabral, Fundação Getúlio Vargas, FIA, Unicamp e Senac-SP, para ficar em alguns exemplos. Pesquise as alternativas em escolas de sua região, avalie os currículos (devem estar sintonizados com atuais discussões do mercado) e os professores (precisam ter experiência comprovada na área), cheque o retorno com quem já fez o curso e selecione o programa que vai lhe trazer os conhecimentos de que necessita para trabalhar agora com o tema numa empresa, no governo ou numa organização sem fins lucrativos.

Ricardo Voltolini é diretor-presidente da Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade (www.ideiasustentavel.com.br), idealizador da Plataforma Liderança Sustentável e autor do livro “Conversas com Líderes Sustentáveis” (editora SENAC-2011) Ideia Sustentável é uma consultoria que educa pessoas para a sustentabilidade e ajuda as empresas a inserirem sustentabilidade na cultura do negócio e a comunicar o valor para diferentes públicos de interesse.