CONCURSO LITERÁRIO TRIBUNA DA BAHIA V EPO- ENCONTRO DE PSICOLOGIA E ORGANIZAÇÕES
out 06

Todos os dias. Naquela mesma esquina. Atiravam-lhe pedras. Ele já conhecia o ruído de cada uma delas. O estrondo das pesadas. O estalido metálico das britas. O creptar rouco do concreto ao partir-se na parede. Fechava os olhos e imaginava uma sinfonia. Uma sinfonia das pedras. Assim seu espírito regozijava, mesmo quando alguma lasca insistia em arrancar-lhe o sangue do rosto. Terminada a saraivada, levantava-se e manquejando, partia em silêncio. Não se ouvia mais as pedras. Apenas no corpo sentia o benefício da orquestra. Porque insistia em passar por aquela mesma esquina em que lhe atiravam pedras. Melhor não seria buscar outro caminho.

E assim, passou-se mais um e mais outro dia. E sempre aquele turbilhão de pedras e a mesma melodia ensurdecedora. E depois vinha o silêncio dos resignados. Se o seu ouvido suportava, o seu corpo ressentia. E progressivamente sentia que já não era mais possível levantar com tanta facilidade, pois se os ouvidos ignoravam, o corpo sabia o que era pedra. Até que um dia na mesma esquina em que disparavam as pedras. A melodia pareceu mais intensa. Algumas caiam pesadamente e o barulho era ensurdecedor. E lá estava ele, como de sempre, recolhido. Até que a rajada cessou. Mas ele não se levantou. Então, todos se aproximaram e constataram que seu corpo já não mais respondia. Entreolhavam-se, assim, meio perdidos, atônitos a contemplar aquele corpo inerte que já não demonstrava sinais de vida. E agora, o que fazer das pedras? Eram muitas pra serem jogadas ainda.

Odilon Sérgio Santos de Jesus é analista universitário da UNEB. Foi ex-aluno do curso de Comunicação Social – Relações Públicas na UNEB e é mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas.

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